Jose Carlos Peluso
O sinal ainda é de alerta para o mercado brasileiro. Empresas que passam por reestruturação não preveem grandes suspiros da economia, nem mesmo aquelas que já conseguiram renegociar as dívidas podem se descuidar nesse ano. A recessão teve um impacto tão profundo que os montantes totais das dívidas empresariais somam R$105,6 bilhões, segundo último levantamento do Serasa Experian. Mais da metade, 54,4% das companhias brasileiras está endividada, um recorde histórico.

O quadro preocupa, já que essas empresas correm sérios riscos de não sobreviverem, caso não encontrem linhas de créditos. E vamos mais além, não é somente a questão de encontrar crédito e de forma rápida o problema. Mas, sim, como empregar o crédito de maneira estruturada e compatível com sua capacidade de geração de caixa. É preciso buscar eficiência em seu “core business” (o ponto forte da empresa) para não entrar em um novo ciclo vicioso e caro. Além disso, é inevitável reestruturar seus negócios. Esse alto endividamento, na nossa visão, gerará um efeito cascata ao longo do ano. Ou seja, se temos grandes empresas com gestão engessada, a dinâmica negativa do negócio irá impactar a movimentação dos fornecedores menores e de pequenos negócios dos quais essas empresas fomentam.

Contudo, as medidas anunciadas recentemente pelo Governo, na tentativa de buscar uma rápida retomada da economia, principalmente em relação ao endividamento tributário das empresas, tende a fornecer um oxigênio às grandes e médias companhias. A MP 766/17 passa a oferecer uma forma de quitar parte dos passivos tributários e do endividamento com tributos e contribuições federais. Contudo, ela beneficia as grandes e médias, já que as de pequeno porte não têm as mesmas condições tributárias das demais que conseguem utilizar eventuais prejuízos ocorridos até dezembro de 2015. Em outras palavras, as pequenas não estão enquadradas no Lucro Real, a grande maioria é Simples e outras Lucro Presumido ou Arbitrado, o que não lhes permitem aderir a MP. Outra medida tem sido a redução da Selic, a taxa que norteia o mercado financeiro para custear os empréstimos bancários, mas leva em consideração também o “rating” (classificação de risco) da empresa. Mais uma vez, as grandes e as médias levam vantagens, pois podem oferecer garantias reais, hipotecas e/ou até alienações fiduciárias, o que torna a taxa de juro mais palatável. Nesse caso da Selic, a redução não beneficia as pequenas e até para um certo range das médias que ainda continuam captando, mas quando conseguem pagam uma taxa cara. Hoje, vivemos um momento de “garantias”, de um lado as financiadoras, de outro os fornecedores e ainda o lado do empresariado brasileiro que busca formas de conseguir rodar a empresa diante de uma escassez de crédito.

Para exemplificar, uma empresa do ramo de embalagens, no interior de São Paulo, recorreu ao assessoramento financeiro externo para reorganizar a empresa, uma vez que os sócios já previam um agravamento da economia do país. Desde o ano passado, atuamos na reestruturação da companhia buscando estancar o sangramento e realizar as renegociações com fornecedores. Conquistamos o equilíbrio financeiro necessário e iniciamos um trabalho de redinamizar o departamento comercial para estabilizar e melhorar a performance da empresa até o final do processo de reestruturação. Esse cenário é comum, porém os dados anunciados pelo Serasa preocupam, já que muitas delas não conseguem capital de giro. Por outro lado, é muito comum o empresariado perceber um certo alívio quando de fato conseguimos renegociar as dívidas e organizar uma nova dinâmica da gestão. Entretanto, não é porque você renegociou as dívidas que a empresa está boa, é necessário atenção e muita serenidade em 2017.

O alto endividamento parou muitos negócios ainda em 2015 e quem conseguiu reorganizar a casa a tempo, atualmente consegue de maneira equilibrada buscar novos caminhos vislumbrando um cenário mais positivo para 2018, quando acreditamos que as empresas tornarão a respirar positivamente. O período é mais crítico para o varejo e o setor de serviços, como também aponta a pesquisa do Serasa, dos quais devem puxar novas consolidações neste ano. Do total de companhias inadimplentes, 45,2% são comerciais (comércio de bebidas, vestuário, veículos e peças, eletrônicos, entre outros), 45% são do segmento de serviços (bar, restaurante, salões de beleza, turismo, entre outros) e 8,9% são indústrias, indica o estudo do Serasa com dados de abril do ano passado.

Além disso, se analisarmos os pedidos de Recuperação Judicial em 2016, com base no relatório do Serasa, temos outro recorde de homologações e um crescimento de 45% em relação à 2015 (1514 pedidos deferidos em 2016). Segundo a Instituição, no ano passado foram homologados 890 pedidos (micro e pequenas empresas), 397 (médias) e 227 (grandes), um total de 1514 novas empresas que passam por RJ. Significa dizer que essas empresas estão em processo de reestruturação financeira, reduzindo custos e entram em 2017 com a condição de manter seus pagamentos correntes em dia, além dos passivos renegociados com a RJ. É um ano perigoso e traz um alerta grande para companhias que não reestruturaram seus negócios. Não me considero um executivo negativo, porém muito cauteloso. As recuperações judiciais servem para salvar, garantir empregos, em primeiro lugar, por isso que enfatizo a importância desse momento. A grande onda de RJ precisa dar certo para que novas demissões não aconteçam e outros empreendimentos não sejam afetados na cadeia da produção.

O alerta que posso dar, com a experiência que adquirimos nesses 12 anos com a lei 11.101/05, que regula a Recuperação Judicial, é que ela é um ‘remédio amargo’. Todavia, ela não pode ser esquecida e, acima de tudo, que a perenização da empresa dependerá de não cair na armadilha do passado. É nessa hora que nossa contribuição é essencial. Vimos casos mal sucedidos, principalmente, porque, ao receberem a aprovação dos planos da RJ, incorreram no erro de achar que tudo estaria resolvido. Repetiram os mesmos deslizes que geraram a crise e, consequentemente, a não recuperação da empresa. Quanto às reestruturações que não necessitam desse ‘remédio amargo’, é importantíssimo entender que renegociar as dívidas não é o suficiente sem antes rever a performance operacional da empresa e a capacidade de geração de caixa. Assessoramos nossos clientes nas renegociações buscando entender como a revisão desses passivos poderá melhorar a performance da empresa e se ela tem condições de gerar caixa de modo estratégico. Para tanto, não é apenas uma renegociação que trará alívio na crise e, sim, o planejamento da quitação dos passivos sem esquecer a capacidade de geração de caixa.

José Carlos Peluso é diretor executivo da Naxentia, especialista em gestão de crise e melhoria de desempenho, e atua em projetos voltados aos setores do agronegócio, indústria e varejo. Possui vasta experiência como CEO, tendo atuado no planejamento financeiro e tributário, prestando apoio as áreas de produção, distribuição, vendas e marketing. Possui mestrado em controladoria pela PUC-SP e MBA pela Fundação Dom Cabral. Formado em administração e contabilidade pela Universidade São Judas Tadeu. www.naxentia.com.br


Matéria originalmente publicada aqui.